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9/06/2003

Simone 

Al Pacino é um realizador chamado Viktor Taransky, com falta de sorte na sua carreira e na vida sentimental e familiar. Encontramo-lo no momento em que uma actriz narcisista, interpretada por Winona Ryder, o abandona durante a rodagem de um filme nos estúdios da Amalgamated Pictures. Viktor fica numa situação difícil, especialmente perante a sua ex-mulher, directora da empresa de produção.
Neste momento de desespero, Viktor cruza um louco, intrepretado por Elias Koteas, lhe promete um actor digital. O protagonista faz orelhas moucas, mas o cientista maluco deixa-lhe em testamento um programa milagroso que permite criar uma actriz virtual.
Simone é o nome que Viktor escolhe para a actriz numérica que pode ser inserida digitalmente em qualquer imagem e que o seu criador pode adaptar, mudando-lhe a voz, o rosto, as expressões, etc. Viktor Taransky acaba o seu filme Secret Sunrise com a actriz virtual, tornando-se num êxito de bilheteira e Simone uma estrela.
Dizer que a história é insustentável é pouco, mas Al Pacino aguenta nos ombros todo o peso de um filme longo demais para o poucochinho que tem para contar. Pacino ridiculariza-se e arrasta toda a gente consigo. É a transformação, pelas mão de Pacino, do filme numa rábula que o salva do fracasso total; juntamente com algumas referências divertidas, tal como o facto de Taransky pretender recuperar a sua ex-mulher e patrão, à semelhança de Woody Allen em Hollywood Ending.
Rachel Roberts, no papel de Simone, é credível como mulher virtual porque é perfeita como ninguém. Roberts representa o oposto de Winona Ryder, num papel quase autobiográfico de actriz caprichosa. E essa é a mensagem que Niccol quer transmitir: já não há pachorra para os actores, e o que os realizadores deste mundo mais desejam é poder trabalhar com escravos virtuais que não os chateiem por causa do tamanho da rulote ou das gomas vermelhas que a "starlette" detesta e que acaba de descobrir no frasco. Niccol tem razão. Os actores de hoje ganham dinheiro a mais, são muitas vezes pretenciosos e, tal como os jornalistas que os rodeiam, pouco devem à inteligência. O erro do realizador, que também é argumentista, é que está tão convencido disto que repete a mesma ideia vezes sem conta. Niccol distrai-se e acaba ainda por cima por cair num irrealismo exagerado. Se a introdução da actriz virtual nos filmes ainda passa, a sua aparição pública ao volante de um carro ou o concerto rock perante milhares de pessoas são excessos que se pagam caro. Tal como a duração do filme que parece entrar em círculos a partir de um certo ponto como se se tratasse de um computador encravado, como se se tratasse de um computador encravado encravado, como se se tratasse de um computador encravado encravado, como se se tratasse de um computador encravado encravado, como se se tratasse de um computador encravado...

Simone de Andrew Niccol, com Al Pacino, Rachel Roberts, Elias Koteas, Winona Ryder, Catherine Keener e Evan Rachel Wood.

Road to Perdition 

Sam Mendes, o geniozinho de sangue português que realizou American Beauty, pegou num conto de Max Allen Collins e acrescentou-lhe laços de família e uma certa queda dos americanos para matar o próximo. Road to Perdition é, incontornavelmente, um filme sobre a máfia e, por isso, vai ser vítima de comparações descabidas com todos os Padrinhos, com Good Fellas ou mesmo a série televisiva The Sopranos. Mas se a comparação se fizesse pela veia dos "gangsters", seria em The Funeral que se poderia encontrar um paralelo. Mas só na primeira meia hora. Depois, Sam Mendes leva-nos pelas estradas longas do interior norte-americano num "road-movie" que deve muito mais ao "western" que aos filmes dedicados a mafiosos e seus "gangs".
Tom Hanks merece mais páginas de elogios do que aquelas que aqui tenhao ao dispor. Hanks é Michael Sullivan, um homem-de-mão de um dos senhores da máfia irlandesa. Sente-se a sua dedicação cega pelo chefe, John Rooney, que é mais uma interpretação de cortar a respiração de Paul Newman. É um prazer ver Newman, do alto dos seus 77 anos, dar corpo a um homem sem preconceitos nem leis mas cheio de escrúpulos. A energia que transmitem a voz e o olhar de Newman chegam para dar ritmo às cenas mais difíceis. Hanks está à altura do desafio e, parece esquecer que a sua imagem de actor que só faz papéis de bonzinho acabou no dia em que disse sim a Sam Mendes.
É difícil falar de Road to Perdition sem estragar a surpresa. E o prazer é esse mesmo: deixar-se ir de surpresa em surpresa, sem colocar questões. Basicamente, o enredo parte de uma vingança. A personagem de Hanks vê a sua mulher e filho mais novo morrer às mãos do herdeiro do seu patrão, Rooney. Com um filho de doze anos a acompanhá-lo, Sullivan vai encetar uma vingança sem quartel e sem hipótese de êxito. Pelo caminho destaca-se a interpretação de Liam Aiken, no papel do filho, e Jude Law, como assassino contratado. Ambos sérios candidatos a prémios da Academia e similares.
Road to Perdition é filmado debaixo de chuva de Inverno, de neve e de um frio que se sente do lado de cá do ecrã. Ficarão para sempre inesquecíveis os assaltos e a matança do "gang" sob chuva torrencial, tudo graças à fotografia esplêndida de Conrad Hall e à música de Thomas Newman. Mas os grandes momentos, dignos de figurar nas retropectivas de Hollywood são frases simples, mas cheias de sentido, e ditas como poucos sabem. "Neste quarto só há assassinos", diz Newman a Hanks. "Quando me perguntarem se Michael Sullivan era um homem bom eu vou responder: ele era meu pai", diz o filho da personagem de Hanks, num tom tão especial que não se consegue chorar. É que quase tudo o que se passa em Road to Perdition é profundo, entranha-se na pele e estranha-se. Mesmo assim, ponha Road to Perdition na sua lista de compras em DVD. Daqui a uns anos vai ser tão bom como saborear uma excelente colheita de vinho do Porto.

Road to Perdition de Sam Mendes, com Tom Hanks, Liam Aiken, Paul Newman, Jennifer Jason Leigh, Jude Law e Stanley Tucci.

Les Jolies Choses 

Les Jolies Choses é um daqueles filmes que passará discretamente numa noite da televisão francesa daqui a um ano, mas que agora tem o peso da novidade e dos protagonistas. Marion Cotillard, Patrick Bruel, Ophélie Winter e o cabo-verdiano Stomy Bugsy são os actores principais de um filme actual que conta coisas dos nossos dias com a linguagem que utilizamos hoje. E essa é talvez uma das suas poucas virtudes.

L'Adversaire 

Jean-Claude Romand, o homem que matou a sua família depois de lhe ter mentido durante 18 anos inspirou literatura e cinema. Emmanuel Carrère escreveu talvez o mais fiel relato sobre o caso, e Nicole Garcia decidiu pegar no livro para passar o caso Romand para o ecrã.
A primeira dificuldade é a proximidade cronológica do tema: Romand ainda está vivo (na prisão) e a maioria das pessoas retratadas também. O segundo desafio era contar uma história tão dramática e brutal, sem chocar demasiado o público.
Laurent Cantet, o realizador de L'Emploi du Temps inspirou-se no caso Romand, mas escolheu uma solução mais simples: adaptar de forma bastante livre os factos originais, nomeadamente o desfecho dramático.
Garcia escolheu, como Cantet, centrar-se na personagem de Romand mas com uma total fidelidade à história real. L'Adversaire mergulha-nos na complicada mente de Jean-Marc Faure (o nome que Garcia escolheu por pudor), um homem que vive os últimos meses da sua vida. O protagonista sofre, está desiludido e desorientado e erra pelo mundo. Nicole Garcia mostra isso mesmo: A música lenta, os movimentos de câmara preguiçosos fazem sentir que o tempo é longo para o protagonista...
Daniel Auteil fornece a expressão pesada e perturbada de homem que mente mas que não perdeu a face humana. Vê-se na sua expressão a ausência de alegria de viver, a resignação perante uma situação irreversível. Através da personagem de Auteil, o espectador atravessa o filme num estado de limbo entorpecedor.
Se Nicole Garcia merece uma acusação talvez seja o facto de ter esquecido o caso de polícia de que o seu filme resulta. Colada à personagem central, a realizadora quase que nos deixa identificar com ele. Carrère, no seu livro, terminava com o lado mais negro de Romand, Nicole Garcia, apesar de ou porque não quer tomar partido, acaba por cair na compaixão e na compreensão. Romand era um homem perturbado, mas aquilo que fez não tem naturalmente desculpa, e é essa dúvida que por vezes aparece no filme de Nicole Garcia. Uma dúvida perigosa.

L'Adversaire de Nicole Garcia, com Daniel Auteil, Géraldine Pailhas e François Cluzet.

The Sweetest Thing 

The Sweetest Thing é o amor ou o sexo? A personagem interpretada por Cameron Diaz no filme The Sweetest Thing parece oscilar entre as duas possibilidades: será o amor a maior fonte de felicidade ou convém fugir dele como o Diabo do cruz? The Sweetest Thing é um filme de Roger Kumble, com Christina Applegate e Selma Blair, além da já referida Cameron. Chamar filme a este projecto de argumento com actores a debitarem sketches com pouca piada é um exagero. A maioria das situações são pouco originais, ou então tão forçadas (já alguma vez no 5 à Sec lhe lamberam a roupa para saber a origem da nódoa?) que irritam. Se não quiser irritar-se, escolha outra fita.

Heaven 

Philippa, uma professora inglesa a viver em Itália, assiste impotente à destruição da vida das pessoas que ama. Philippa sofre mais porque conhece o culpado. Vendice é um mafioso sem escrúpulos (passe a redundância) que transformou o seu marido em toxicómano e destruiu todas as hipóteses de felicidade do casal.
Determinada a acabar com um círculo vicioso de droga e miséria, Philippa decide colocar uma bomba nos escritórios de Vendice, mas planeia o acto de forma a que nenhum inocente sofra. Infelizmente, uma das pessoas que limpa o edifício encontra o engenho e a explosão ocorre no pior momentoe registam-se quatro vítimas mortais.
A polícia não demora até prender Philippa, acusando-a de terrorista e pedindo-lhe nomes dos líderes da sua organização. Desesperadamente, Philippa afirma ter agido sózinha, mas as autoridades não acreditam. É um polícia idealista, curiosamente chamado Filippo, que vai acreditar na história da professora e ajudá-la, ainda que colocando a sua carreira em risco. Os dois acabam fugitivos, partilhando o mesmo objectivo: desmascarar Vendice.
Philippa é Cate Blanchett, Filippo é Giovanni Ribisi, e o realizador é o jovem prodígio alemão Tom Tykwer. Baseado num argumento escrito pelo falecido realizador polaco Kieslowski e pelo seu braço direito, o também Krzysztof, Piesiewicz, Heaven é um filme rodado à flor da pele, que não tem medo das emoções, mostrando-as de todos os ângulos. De um "thriller" sobre uma vingança, Heaven rapidamente evolui para uma meditação sobre a culpa e o amor acima de todas as coisas. Este é o tema predilecto de Tykwer, que jé demonstrou duas vezes a sua capacidade para contar histórias de amores loucos.
Rennt Lola Rennt ficou na memória pela velocidade (passe o pleonasmo) e os estranhos diálogos em que os protagonistas discutiam a força do seu amor mútuo. O seu trabalho seguinte, Der Krieger und die Kaiserin centrava-se num casal que tinha tudo para não poder amar-se mas insistia...
Heaven é diferente dos seus predecessores: o bilinguismo permanente (italiano-inglês) afasta comparações com os dois filmes alemães de Tykwer, mas também o ritmo mudou. O frenesim visual dos dois primeiros filmes do realizador germânico transforma-se em Heaven numa calma tensa embelezada por uma fotografia deslumbrante de Frank Griebe.
Cate Blanchett ilumina as cenas com raiva e desepero como já não se via há muito tempo. A sua prestação extraordinária, aliada a uma história sublime que Tykwer soube transformar num filme, fazem de Heaven um sítio algures na Terra.

Heaven de Tom Tykwer, com Cate Blanchett, Giovanni Ribisi, Remo Girone, Stefania Rocca e Stefano Santospago

Red Siren 

Red Siren ou La Sirène Rouge é uma produção francesa que quando for grande quer ser americana. Infelizmente, Red Siren copiou todas as coisas más dos filmes de Hollywood e esqueceu-se de conservar as boas. As dificuldades de Red Siren começam na história rocambolesca mas o golpe de misericórdia é dado pelos actores. Olivier Megaton não podia ter escolhido piores – se é que o deixaram escolher – protagonistas para este filme de acção e suspense em que são disparadas mais balas que nas várias edições de Terminator reunidas, incluindo a versão pornográfica.
Alice, a actriz Alexandra Negrão, é perseguida por assassinos armados até aos dentes, pagos pela sua mãe Eva (Frances Barber) que é a imperatriz de uma poderosa organização claramente dedicada a actividades ilegais que vão do tráfico de armas à comercialização de filmes "snuff". Alice vai a uma esquadra em Paris descobrir uma inspectora da polícia simpática chamada Anita (Asia Argento) para logo a seguir deparar com Hugo (Jean-Marc Barr), um mercenário com problemas de consciência que gosta muito de crianças.
Hugo vai transportar Alice de Paris até Portugal, começando aí um "road-movie" cheio de peripécias que incluem muitas explosões e tiroteios. Hugo transforma-se no guardião da pequena Alice que pretende apenas reencontrar seu pai que vive numa aldeia piscatória da serra da Arrábida chamada Galeão.
Red Siren é daqueles filmes em que temos desde logo a certeza de que nada de mau pode acontecer à protagonista – a jovem Alice – nem aos seus amigos mais directos. E isso é mau. Pior é quando os seus amigos são actores do calibre de Asia Argento e Jean-Marc Barr, dois dos mais reputados canastrões em actividade. O pretensiosismo de ambos transpira por todos os poros da tela e os silêncios com que nos brindam tornam a espera pela cena seguinte insuportável.
Tanto Barr como Asia têm ar de se aborrecer e de pensar que eles seriam capazes de realizar isto tudo muito melhor. Sendo já conhecidas as capacidades de ambos para se colocarem atrás da câmara ficam dúvidas de que o resultado fosse melhor, mas Olivier Megaton coloca a fasquia tão baixinha que nunca se sabe... Este discípulo e protegido de Luc Besson prova mais uma vez que o realizador de The Fifth Element teve mais sorte que talento ao longo da sua carreira.
De Red Siren fica o prazer da prestação da jovem Alexandra Negrão e o gosto de ver Portugal durante mais de uma hora, nomeadamente com uma redentora e ridícula cena final, filmada de um helicóptero em círculos à volta do Cristo-Rei rodeado de andaimes porque, infelizmente para os produtores, no momento das filmagens o ex-libris da outra banda estava em obras.

Red Siren de Olivier Megaton, com Asia Argento, Jean-Marc Barr, Alexandra Negrão, Andrew Tiernan e Frances Barber.

About a Boy 

About a Boy é a história de um solteirão londrino que não trocaria a sua liberdade por nada no mundo. Vive só, assume o seu egocentrismo e gasta folgadamente o dinheiro que "lhe cai do céu" porque seu pai escreveu um dia uma canção de Natal que lhe permite viver dos direitos de autor herdados. Compromissos não assume, com crianças nem sonha; até que um dia descobre que o mundo está cheio de belas e disponíveis mães-solteiras. About a Boy é uma excelente comédia, protagonizada por Hugh Grant, baseada numa obra do mesmo escritor do "best-seller" High Fidelity, que também já passou para os ecrãs. Hugh Grant é Will, um homem-rapaz como há muitos por aí. Um conselho a todos: não levem as namoradas a ver este filme para evitar uma cena que será tão certa como estarmos a ler isto. Vão sózinhos, como mandaria o protagonista, e aprendam a lição que Hugh Grant tem para dar.

Avalon 

Num futuro não muito longínquo, há gente que vive uma realidade alternativa através de um jogo de guerra virtual e ilegal, intitulado Avalon. Ash, ganha a sua vida a jogar Avalon. Todos os dias passa da vida real para o jogo, vivendo entre dois mundos distintos. Mas a jovem Ash vive inquieta porque o seu antigo companheiro no jogo deixou a sua mente algures num nível desconhecido de Avalon. Ash vai tentar descobrir porquê e onde se encontra Murphy.
Mamoru Oshii volta a atacar temas que elegeu em toda a sua cinematografia: a busca do lado mais humano das pessoas. O realizador japonês, que assinou o extraordinário filme animado Ghost in the Shell, e que é admirado por James Cameron e os irmãos Wachowski, dirige aqui personagens de carne e osso.
Não há dúvida que Avalon é um salto qualitativo na criação cinematográfica de ficção científica. Sob o signo da lenda do Rei Artur e da sua busca do Graal, integrada num jogo virtual, Oshii mostra uma sociedade sem referências, dependente de uma droga... virtual, neste caso. Avalon é ficção retro-futurista que deixa transparecer fantasmas do cinema polaco dos anos 70 ou das obras de Tarkovski. Não é por acaso que o realizador japonês filmou na Polónia e escolheu exclusivamente actores daquele país para protagonizarem Avalon.
Mas, melhor ainda, Oshii mistura de tal forma os dois mundos, real e virtual, que desorienta o público. Numa acção bem organizada e com poucos "flashbacks", acabamos, surpreendentemente, por não saber em que mundo vive a heroína Ash.
Os tons sépia de quase todo o filme, a beleza dos planos e elegância da realização são a prova da grande vontade que Oshii tem de renovar e de negar a continuidade com a ficção científica que se vai fazendo. O realizador japonês utiliza actores de carne e osso, mas não se abstém de os trabalhar a clique de rato, para obter um controlo total sobre as criaturas que faz evoluir no ecrã, transformando tudo, incluindo a expressão da belíssima Malgorzata Foremniak que se torna quase numa boneca lívida de olhar vazio e perturbador.
Acima de tudo, Avalon é um filme contestatário, como o era o cinema polaco de Kieslowski e seus seguidores, que Oshii publicamente admira. A realidade que o japonês nos pinta é desesperante: solidão, ilusão e desorientação. Uma sociedade onde não vale a pena viver. A escolha é a realidade virtual, ou morrer, para ter o direito de fugir com os heróis para Avalon, ao som de música celestial.
Avalon só suscita uma única reserva: o espectador que não conheça suficientemente bem o universo dos jogos de vídeo arrisca-se a não apreciar devidamente todas as subtilezas deste filme cheio de pormenores interessantes, que podem, no caso dos menos avisados, parecer exagerados e cansativos.

Avalon de Mamoru Oshii, com Malgorzata Foremniak, Wladyslaw Kowalski, Jerzy Gudejko, Dariusz Biskupski e Bartek Swiderski.

Donnie Darko 

Donnie Darko é uma alucinação colectiva em que os espectadores vivem com o protagonista. Donnie pode ver uma criatura que mais ninguém detecta e que lhe revela segredos bem escondidos dos outros mortais. Donnie Darko é um filme negro, sem o ser no sentido que a palavra tem no cinema, cheio de momentos de tensão psicológica. Patrick Swayze tem a oportunidade de desempenhar um dos melhores papéis da sua carreira, o que não é um elogio de maior.

Rat Race 

Há quem diga – por exemplo a minha avó – que antigamente é que era bom. Se calhar até era, mas há coisas que tiveram o seu tempo e não convém levantá-las dos túmulos da História.
Os senhores que fizeram o filme Rat Race não pensam como eu – e ainda bem, diria a minha avó, que sempre achou que eu só pensava em borgas. O filme de Jerry Zucker recupera a tradição dos filmes de corridas e perseguições dos anos 60, mas vai ainda mais longe ao copiar muitas ideias do cinema mudo. Qualquer espectador – ainda que muito cinematograficamente iletrado – vai reconhecer situações e personagens extraídas quase directamente das obras de Buster Keaton ou dos Keystone Kops.
A ideia de base de Rat Race é – como o nome indica – uma corrida assaz original lançada por um magnata de Las Vegas, para proporcionar os seus clientes jogadores mais inveterados um jogo diferente e bastante real. Os concorrentes são escolhidos de forma perfeitamente aleatória, através de uma ficha que sai como prémio nas máquinas de um casino. Os contemplados devem – apenas – dirigir-se até à cidade de Silver City, situada a cerca de 900 quilómetros de Las Vegas, e retirar de um cacifo na estação de comboios um saco com dois milhões de dólares! A corrida só tem uma regra: não há regras.
Os concorrentes podem participar só ou com a ajuda circunstancial de alguém, o que faz com que à partida (e aliás também à chegada) se encontrem personagens tão variadas como os actores que lhes dão corpo: Whoopi Goldberg, Cuba Gooding Jr, Rowan Atkinson, Jon Lovitz, Seth Green, Vince Vieluf, Kathy Najim, Breckin Meyer e Amy Grant.
Com um elenco bastante rico podia esperar-se mais qualidade, mas o filme descai para o frenesim. A maioria das situações cómicas são levadas de tal forma oa extremo que suprimem a vontade de rir e as cenas são montadas a martelo. Salvam-se algumas ideias divertidas e inteligentes como a visita ao museu Barbie que se revela um monumento nazi a Klaus Barbie e não à boneca; ou ainda a cena em que a piloto de helicópteros descobre o seu namorado na piscina com outra e decide vingar-se.
De entre todos os actores, merece uma referência especial o excelente Rowan Atkinson – mais conhecido por Mr. Bean – aqui no papel de um turista italiano. Atkinson debita algumas das melhores caretas que um ecrã de cinema jamais reflectiu, incluindo os velhos mestres do cinema mudo.
Mas Rat Race deixa exactamente essa dúvida: não seria melhor um melhor filme se não fosse sonoro? No século XXI, fazer um filme preto e branco pode ser uma opção, mas abandonar o som não o é certamente. É pena; talvez o martírio fosse mais suportável se não ouvíssemos os uivos de Whoopi, os assobios dentais de Cleese, a gritaria de Seth Green ou os histerismos das 60 ocupantes de um autocarro conduzido por Cuba Gooding Jr.

Rat Race de Jerry Zucker, com John Cleese, Rowan Atkinson, Whoopi Goldberg, Breckin Meyer, Cuba Gooding Jr, Jon Lovitz, Kathy Bates e Wayne King.

Sueurs 

Sueurs é um filme de acção franco-americano que marca o regresso de Joaquim de Almeida às produções internacionais de grande distribuição. O actor começa a ganhar o hábito de fazer de mau-da-fita e, depois de ser o inimigo de Harrison Ford ou o irmão vilão de El Mariachi, Joaquim de Almeida é membro de um grupo de ladrões que roubam um camião carregado de ouro.

Bully 

As frases de abertura deste filme deixam desde logo o espectador com a certeza de que nada vai ser como o costume. Larry Clark tem destas coisas: nunca nos deixa confortavelmente sentados na cadeira. E Bully é mais um bom exemplo. A análise que faz um mirone da vida debochada de um grupo de adolescentes.
Começamos por conhecer Marty e Bobby. Este convence o primeiro a operar uma linha rosa de telefone para homossexuais e encoraja-o a dançar num clube "gay". A relação entre os dois adolescentes não é de amigos, mas de domínio. Bobby aproveita-se de Marty e abusa dele fisica e psicologicamente.
Este duo encontra a mãe-solteira de 19 anos, Ali, e a sua amiga inexperiente, Lisa. Apaixonada por Marty, Lisa engravida e começa, paralelamente, a desenvolver um enorme ódio em relação a Bobby, até que um dia lhe ocorre a ideia de o matar.
Bully é baseado num romance que encontrou inspiração na vida real. Larry Clark não podia ter enocntrado um filão tão adaptado às suas qualidades de garimpeiro. As personagens são jovens, filhos de pais abastados, que vivem numa espécie de vácuo de valores e princípios. Acham a sua vida aborrecida e aliviam-se da monotonia com o sexo, a droga e, em menores doses, o álcool, a música e os jogos de vídeo.
Larry Clark parece contudo indeciso entre chocar o espectador com a dureza da realidade destes jovens e aproveitar um certo humor na forma torpe como este insólito grupo tenta levar a um assassinato. Além disso, Clark pode ser acusado de debitar lições de moral, enquanto mostra a carne fresca de jovens adolescentes sempre que pode. Mas não é de sexo gratuito que se trata; é de despertar os mais íntimos desejos de cada um, de brincar com as fraquezas de todos e de colocar o espectador perante a dúvida. Bully perturba por isso, porque o "voyeurismo" é um defeito que todos temos e, se gostamos de ver, é porque talvez gostassemos nós também de estar naquele carro a passear, sem nenhuma preocupação a não ser evitar vomitar.

Bully de Larry Clark, com Brad Renfro, Rachel Miner, Bijou Phillips e Michael Pitt.

Kissing Jessica Stein 

Helen é a gerente de uma galeria de arte, rodeada de homossexuais, que decide ser lésbica. A atitude dele é, no entanto, a de uma vegetariana que decide comer um bife de vez em quando, já que continua a ver vários amantes do sexo masculino.
Jessica sofre de uma doença cada vez epidémica entre mulheres na casa dos 30: está desiluadida com os homens e com todos os encontros que arranja ou que lhe combinam. Responde a um anúncio de jornal colocado por Helen só porque esta cita uma passagem de Rilke.
Jessica não arranja um homem porque é perfeccionista. Os homens que cruza são analisados da mesma forma que escrutina os textos no seu trabalho de correctora num grande jornal nova-iorquino.
Helen é mais flexível, experiente, e não procura a perfeição num parceiro. O seu objectivo é descobrir gente interessante e tentar perceber o que lhes vai na cabeça. Quando encontra Jessica o seu objectivo é descobrir como ela vai reagir a uma experiência com uma mulher. Mas Jessica evolui muito devagar e a relação física demora a acontecer.
O filme vive desses momentos. Kissing Jessica Stein nunca se transforma numa comédia sexual, mas é uma espécie de telenovela de qualidade com um par romântico em que, por acaso, os parceiros são do mesmo sexo.
O que transforma Kissing Jessica Stein numa comédia é a abordagem ligeira e divertida de um assunto sério. Qualquer homossexual dirá que os autores do filme estão a brincar com o fogo e que ninguém escolhe ser homossexual, mas as protagonistas – que são também argumentistas – decidiram evitar as emoções mais sérias. O par de amantes, Helen e Jessica, não chega propriamente a ter uma relação sexual estável, principalmente porque Jessica "se corta" e dá impressão de não gostar muito de sexo, nem com homens nem com mulheres. E as poucas relações carnais que as duas tiveram dão sempre a impressão de serem um passatempo, como por exemplo ir ao cinema. Por isso o filme faz rir. Porque ninguém se magoa nesta história. E porque Jessica é como uma adolescente que aceita girar a garrafa, mas que muda imediatamente o castigo quando o gargalo aponta para ela.

Kissing Jessica Stein de Charles Herman-Wurmfeld, com Jennifer Westfeldt, Heather Juergensen, Scott Cohen e Tovah Feldshuh.

Rollerball 

Rollerball é um "remake" de um filme que há 30 anos era profético, mas agora parece apenas um pálido retrato da realidade do desporto, dos meios de comunicação e da nossa sociedade em geral. Um filme que McTiernan filma como só ele sabe, mas que deixa sempre um sabor a "passé".

Men in Black 2 

"O mesmo planeta. Nova escumalha". Esta é a frase-chave da campanha de promoção de Men in Black 2. Uma forma atraente de chamar às salas escuras os fãs do primeiro filme de Barry Sonnenfeld. Mas os homens do marketing esqueceram-se de acresentar uma terceira frase: "O mesmo filme". É que Men in Black 2 dava para fazer uma tese de doutoramento sobre sequelas, começando pelo dado adquirido habitual: todas são piores que o filme original.
Um êxito fulgurante em 1997, Men in Black (a.k.a. MiB) era uma mistura cuidada do estilo de James Bond, com a simplicidade dos filmes de monstros dos anos 50 e as paranóias que os X-Files meteram na cabeça cá da malta. Além disso, o primeiro filme podia vangloriar-se de conseguir colocar lado a lado o actor-cantor Will Smith e o velho veterano Tommy Lee Jones, mais habituado a contracenar com cavalos e assassinos. O resultado era uma subespécie de ficção científica a que se poderia chamar "foleiro-chique".
Segunda tiragem de Men in Black e vemos os papéis inverterem-se: agora a personagem de Will Smith é mais experimentada e vai tentar recuperar o "velho" Tommy Lee Jones. Porquê? Porque o antigo agente dos homens de negro guarda algures na sua memória um segredo que pode salvar o planeta.
Até aqui ainda vamos indo, mas os mais exigentes vão dizer que já viram isto em qualquer lado. Os outros – a malta – querem é extraterrestres! Muitos e de todas as cores e feitios. E acção! Muita acção... mas a acção em MiB2 nunca envolve suficientemente a malta... que tem tendência a desligar. Com un enredo desinteressante e cheio de situações forçadas, o prazer fica em pequenos momentos, como as intervenções do cachorro falante Frank the Pug, a paixão da personagem de Rosario Dawson por Jay e as mamas de Lara Flynn Boyle.
A generalidade dos fãs de Men in Black vai ficar satisfeita com este regresso dos homens de negro. Mas aposto que meia hora depois de sairem da sala já esqueceram tudo. E nem sequer precisaram de ser "neurolizados".

Men in Black 2 de Barry Sonnenfeld, com Will Smith, Tommy Lee Jones, Rip Torn, Rosario Dawson e Lara Flynn Boyle.

Scooby Doo 

Scooby Doo, o cão mais medricas do mundo, está nos grandes ecrãs em carne e osso. Bem, em carne e osso não é o termo mais indicado, mas Scooby passou dos desenhos animados e dos quadradinhos para o cinema feito com actores a sério, entre os quais Freddi Prinze Jr. e Sarah Michelle Gellar. Um elenco de luxo para fazer, companhia a um cão desenhado especialista em mistérios parapsicológicos desenhado em computador.

Lost and Delirious 

Mary Bradford, conhecida por Mouse, é uma miúda tímida que chega a um colégio interno e imediatamente as suas companheiras de quarto se lançam numa série de "apresentações" cínicas, daquelas que o cinema mostrou tantas vezes e a vida repetiu. Tudo o que as duas "veteranas" dizem é premeditado e destinado apenas à recém-chegada, numa série de diálogos pouco plausíveis e muito forçados. Logo no início, uma personagem consegue mesmo incluir numa deixa o título do filme.
As companheiras de quarto de Mouse são Paulie e Victoria, que por acaso são amantes, uma situação que a nova colega aceita sem preconceitos. Mas quando outras raparigas surpreendem Paulie e Victoria na cama, a primeira nega e não assume a relação que vinha mantendo. Paulie inicia uma série de cenas em que faz coisas rebeldes, acabando sempre por chorar. E cúmulo dos cúmulos: encontra um falcão ferido que trata até que ele recupere e, a partir daí, a banda sonora até inclui alguns gritos de falcão.
Tudo o que é dito neste filme é pouco original e soa bastante a irreal. Lost and Delirious parece ter sido feito para meninas de 15 anos, daquelas que viveream fechadas num colégio interno, que nunca leram um livro, viram um filme ou uma peça de teatro. Talvez as meninas do filme achassem um filme como este interessante, mas qualquer espectador normal vai sentir a fraqueza dos diálogos e a superficialidade do argumento.
Mas nem tudo é mau. Piper Perabo acaba por ter alguns momentos de qualidade e Graham Greene, no papel de jardineiro da escola, consegue compor uma personagem humana e digna, apesar de ser obrigado a debitar os mesmos diálogos estúpidos que todo o elenco. Quando Paulie e Mouse correm pelos bosques a gritar como falcões, Greene observa-as calmamente, abana a cabeça e volta ao trabalho. Eu devia ter feito a mesma coisa. Ou então, regressava a casa e revia em DVD Girl Interrupted, um filme muito parecido com este, mas bom.

Lost and Delirious de Léa Pool, com Piper Perabo, Jessica Paré, Mischa Barton e Graham Greene.

Not Another Teen Movie 

Not Another Teen Movie é um título que diz muito sobre o espírito de rábula desta realização de Joel Gallen. Qualquer semelhança deste filme com American Pie ou afins é uma coincidência feliz e desejada. Uma hora e meia cheia de estereótipos. Da loira burra ao intelectual dos oculinhos de massa, está lá a galeria toda, tendo como único objectivo fazer rir às gargalhadas com situações que têm quase sempre a ver com... – sim, adivinharam – sexo.

Murder by Numbers 

O duo Nathan Leopold e Richard Loeb, dois estudantes de Chicago que em 1925 raptaram e assassinaram um rapaz de 14 anos pelo prazer "intelectual" de cometer o crime perfeito, já inspirou muitos cineastas. A obra-prima The Rope, de Alfred Hitchcok, é vagamente inspirada nesse caso, tal como o excelente filme de tribunal Complusion; um trabalho de 1959 que merece uma vista de olhos se tiverem a sorte de o encontrar.
Barbet Schroeder ataca pela terceira vez (corrijam-me se me engano) o caso Leopold-Loeb, depois de se ter aventurado com bons resultados pelo suspense deste tipo com Single White Female e Desperate Mesures.
Em Murder by Numbers, Sandra Bullock é Cassie, uma experiente inspectora de homicídios que investiga a morte brutal de uma jovem. As pistas conduzem-na até dois jovens, Richard e Justin, que são alunos brilhantes e, de facto, os culpados do crime.
Contudo Cassie não se convence facilmente e enceta uma série de jogos "cerebrais" com as suas presas. O seu companheiro de trabalho, interpretado por Ben Chaplin, acredita que todo o trabalho a que Cassie se dá é apenas uma forma de escapar à realidade de um casamento falhado com um marido desequilibrado.
Tudo isto dava pano para mangas, mas a forma como Schroeder desenrola o novelo deixa bastante a desejar. Os dois jovens geniais cometem erros de palmatória, tais como deixar vestígios de vómito (desculpe-me quem estiver a comer enquanto lê esta crítica) ou comportar-se de maneira tão estranha que se eu fosse pai deles ia queixar-me à esquadra mais próxima.
E mesmo se os actores oferecem o melhor que têm para dar – com destaque para Ryan Gosling –, este filme não escapa a um clímax desmesurado e muitas escorregadelas num percurso de duas horas. Se usarmos os métodos matemáticos de investigação de Cassie, temos de dizer que o filme é, infelizmente, menos que a soma das partes.

Murder by Numbers de Barbet Schroeder, com Sandra Bullock, Ben Chaplin, Ryan Gosling e Chris Penn.

Blade II 

Não sei se os nossos leitores conhecem Blade, um rapaz que nasceu de mãe humana contaminada por um vampiro. Por isso, o pobre Blade é meio homem e meio vampiro, o que - devem compreender - não facilita a vida a ninguém. Blade é um rapaz cheio de princípios e não quer ser vampiro sugador de sangue. Para anular essa sede eterna toma um soro especial que lhe permite sentir-se quase humano. Blade decide vingar a morte da sua mãe e a estranha condição em que vive, destruindo todos os vampiros do mundo.
Blade é interpretado por Wesley Snipes, que já tinha dado corpo ao homem-vampiro no primeiro filme. Blade II é mais violento que o primeiro. Lutas, armas, testosterona e bastante sangue transformaram esta sequela num filme muito mais "gore" que o original.
Desta feita, Blade tem de se aliar aos velhos inimigos vampiros para combater a ameaça dos "reapers", uma linhagem mutante de vampiros que pretendem eliminar os vampiros normais e depois destruir a Humanidade.
Se o primeiro Blade oferecia algumas excelentes combinações de coreografia nas cenas de acção e efeitos de qualidade, Blade II atira-se declaradamente para o universo da acção gratuita e permanente. O único prazer em termos de efeitos e maquilhagem é o excelente trabalho a nível do maxilar inferior dos "reapers", que se abre para melhor sugar o sangue das vítimas.
Blade II concentra-se na batalha que trava o protagonista para proteger a espécie humana lutando, paralelamente, com a sua dupla natureza de vampiro e homem, um pouco à maneira de Spock, sem as orelhas mas com mais sangue. Blade tornou-se mais introspectivo e os ambientes pesados, graças ao trabalho de Guillermo del Toro (o mesmo de The Devil's Backbone). Blade II é um filme azul gelo, vermelho sangue e amarelo torrado, o que o torna agradável à vista. Podia ser pior.

Blade II de Guillermo del Toro, com Wesley Snipes, Kris Kristofferson, Ron Pearlman e Leonor Varela.

Samsara 

Samsara é um filme com nome de perfume que deixa um rasto de exotismo nos espíritos de quem vê esta obra calma e relaxante como uma sessão de ioga. Uma co-produção entre a França e a China que nos conta a história de um monge budista caído no mundo dos homens normais.

Queen of the Damned 

Quando Tom Cruise parte para novas aventuras no final de Interview With a Vampire a maioria do público talvez desejasse saber o que iria acontecer a seguir. No entanto, a obra de Neil Jordan deixou um certo ar de vaziez (se é que o ar é um vazio, mas pronto) que a qualidade das obras de Anne Rice não merecia. E Neil Jordan parece ter percebido que Interview With a Vampire era suficientemente infiel aos textos para não se aventurar na adaptação de outro livro da mulher que mais escreveu sobre o conde Drácula.
Mas neste mundo há gente que não tem vergonha nenhuma. Se toda a gente tivesse vergonha, ninguém teria nunca intentado a aventura de continuar o trabalho encetado por Interview With a Vampire. Queen of the Damned é o nome do crime. Stuart Townsend é o protagonista, no papel do vampiro Lestat, que ultrapassou penas e conflitos existenciais relativamente a ser imortal e se dedicou ao rock, tornando-se uma superestrela. Esta situação agrada imenso a Akasha (interpretada por Aaliyah), a rainha dos vampiros, que sonha com a conquista do mundo através do poder "musical" de Lestat.
Aaliyah – que morreu quando o filme estava a ser concluído – e Townsend encaixaram bem nas suas personagens e asseguram aquilo que lhe foi pedido. Mas tudo se perde porque Queen of the Damned é um filme em que ninguém sabia bem por onde começar e, pior, onde acabar.
Queen of the Damned é intrinsecamente mau e agrupa em 110 minutos alguns dos flagelos que infestam o cinema actual: a acção é tão óbvia que tudo se adivinha, o estilo vídeoclip de filmagem enjoa e o volume sonoro é utilizado para pregar susto ao espectador e desencadear emoções.
Sabe-se que, depois da morte de Aaliyah, o seu irmão deu a voz – trabalhada posteriormente em computador – para fazer a dobragem da actriz: solução engenhosa e indetectável. É pena que os responsáveis por Queen of the Damned não tenham demonstrado a mesma capacidade criativa e técnica para nos fazer desejar ver mais uma das "Vampire Chronicles" de Anne Rice. Depois de Neil Jordan ter fechado a tampa do caixão, Michael Rymer espetou-lhe uma série de pregos de 12 centímetros.

Queen of the Damned de Michael Rymer, com Aaliyah, Stuart Townsend e Marguerite Moreau.

Unfaithful 

Unfaithful é mais um remake de um filme francês, desta feita pela mão perita de David Lyne. Experiente no erotismo e nas coisas entre homens e mulheres, Lyne assina um trabalho em que a maior surpresa é Richard Gere no papel de marido e não de amante. Para ser o amor adúltero de Diane Lane o escolhido foi Olivier Martinez. Um trio que muito oferece a este filme cheio de suspense e bonitas imagens de amor e ódio.

Femme Fatale 

Ver o novo filme de Brian De Palma deixa no espectador uma sensação de déjà-vu. O realizador mais hitchcockiano do bairro, depois de uma série de êxitos de bilheteira, regressa com mais confiança que nunca, numa história que faz lembrar os seus filmes dos anos 80. Femme Fatale é a história de uma mulher – desculpem-me o pleonasmo – perversa, manipuladora, mentirosa e bissexual que parece incorporar em si muitas das obsessões do realizador, que também assina o argumento.
Mas perdoam-se a De Palma as paranóias – quem as não tem que atire a primeira pedra – por causa de momentos como a cena inicial. O realizador nunca antes demonstrara tanta criatividade e liberdade estilística como na abertura deste filme, acompanhada pelo bolero de Ravel. O momento é dramático e está na base de toda a acção: durante o festival de Cannes, um grupo de ladrões tentam roubar uma jóia valiosíssima.
A cena incial relembra a permanente obsessão do realizador pelas mulheres, que vai ao ponto de se (nos) deliciar com um longo momento de sexo lésbico, protagonizado por Rebecca Romijn-Stamos e a manequim Rie Rasmussen. Mas Rebecca Romijn-Stamos interpreta aqui uma mulher que sai bastante dos padrµoes que Alfred Hitchcock gravou na mente de De Palma. Se Nancy Allen ou Melanie Griffith preencheram em filmes precedentes todos os requisitos da mulher segundo o mestre inglês, Rebecca é diferente porque... e não se pode sequer revelar mais porque para ir mais longe é preciso falar do final e estragar tudo.
Em Femme Fatale não é a mulher que é objecto da obsessão, mas o homem. O fotógrafo interpretado por Antonio Banderas entra numa caça de gato e rato em que não se sabem bem quem é o quê. E aí, Femme Fatale deixa de ser um filme de Hitchcock para se transformar em Eyes Wide Shut ou mesmo numa obra de Kieslowski, pela forma como nos passeia pela cidade de Paris, até um dos hóteis mais estranhos e futuristas da cidade, como se tudo fosse um sonho.
Pela surpresa, pelo romantismo e pelo dramatismo, Femme Fatale merece a atenção do público. E por Rebecca Romijn-Stamos que, acompanhada de Rie Rasmussen, protagoniza um dos momentos mais eróticos dos últimos anos nas salas escuras.

Femme Fatale de Brian De Palma, com Rebecca Romijn-Stamos, Antonio Banderas, Peter Coyote, Eriq Ebouaney, Thierry Frémont e Rie Rasmussen.

Spider-man 

O realizador Sam Raimi, o argumentista David Koepp e companhia transformaram o herói da banda desenha que tantas gerações encantou num boneco da Sétima Arte de corpo inteiro. Spider-man logrou capturar o charme e o estilo visual dos livros da Marvel que desde os anos 40 criaram a lenda do Homem Aranha, uma criação de Stan Lee.
O filme, tal como as histórias aos quadradinhos que lhe deram origem, retrata um super-herói único e original que reflecte a vida normal de um adolescente de forma exacta e realista. Apesar dos poderes extraordinários, o herói de Spider-man é vítima de atrocidades da vida e, sobretudo, familiares, de que todos os adolescentes sofrem: Peter não consegue a rapariga dos seus sonhos, tem uma relação complicada com com os tios com quem vive e oscila entre sensações de medo, incerteza, ambição e esperança em todas as coisas da vida.
Quando nos apresentam o Homem Aranha ele ainda é apenas Peter Parker, um aluno de liceu desastrado que só tem um amigo. Numa visita de estudo, Peter é mordido por uma aranha alterada geneticamente (uma actualização inteligente da aranha radioactiva original) e acorda com super-poderes. A primeira ideia que ocorre ao adolescente mal integrado é vingar-se dos mandões lá da escola, mas Peter tem consciência que ainda não é um adulto. Quando tenta aproveitar os seus poderes para ganhar algum dinheiro, Peter é explorado e provoca, ainda que indirectamente, a morte do seu tio. O choque leva-o a decidir utilizar os super-poderes exclusivamente para fazer o Bem.
Tobey Maguire revela-se uma excelente escolha para interpretar um herói que é mais profundo que os outros. Além de se mexer como o papel pedia, Maguire tem a capacidade de fazer falar os seus olhos azuis. Sam Raimi utiliza esta capacidade do actor principal para reforçar o impacto emocional do filme, e nunca deixa o trabalho de todo o elenco ser apagado pelos excelentes efeitos especiais.
O filme é, à semelhança dos movimentos do seu herói, um balanço constante entre emoção e enrgia física, que colam os espectadores à cadeira durante duas horas. A bem doseada mistura de depressão adolescente com o estilo da banda desenhada original é um verdadeiro tributo à personagem que Stan Lee. Ver um Homem Aranha de carne e osso é um prazer igual ou superior aquele que nos deu Tim Burton com Batman nos idos de 1989.

Spider-man de Sam Raimi, com Tobey Maguire, Willem Dafoe, Kirsten Dunst, James Franco e J. K. Simmons.

The Majestic 

De todos os filmes sobre as actividades do HUAC (House Un-American Activities Committee), há poucos que se aproveitem porque se caiem na tentação fácil e panfletária de pintar de preto os homens que defendiam os ideais McCarthistas e de azul ou rosa os acusados. Este período inquisitorial da história norte-americana – conhecido como caça às bruxas ou ainda pelo nome do senador anticomunista McCarthy – deu origem a um excelente filme assinado pelos britânicos (Fellow Traveller) e a muitas obras más, das quais Majestic é apenas mais um exemplo.
A culpa do fracasso de Majestic é essencialmente de duas pessoas. O realizador Frank Darabont, que já tinha provado a sua capacidade para entorpecer os mais pintados com filmes como The Green Mile, e Jim Carrey que parece ter atingido os seus limites, depois de já ter demonstrado que podia ser mais que um homem com cara de fantoche.
Jim Carrey é Pete Appleton, um argumentista de segunda linha sem convicções políticas que, apesar disso, é referido algures como antigo membro de uma organização comunista e arrisca-se, por isso, a ser citado pelo HUAC. Appleton passa automaticamente para a lista negra do estúdio onde até então trabalhara, não resiste à pressão, apanha uma piela e é vítima de um grave acidente de automóvel. Acorda, amnésico, numa praia junto a uma pequena cidade chamada Lawson e os habitantes confundem-no com um tal Luke Trimble, filho do dono do cinema local, desaparecido na guerra e herói para todos os seus conterrâneos. Com tanta motivação popular, Appleton ajuda o "pai" a reabrir o cinema há muitos anos encerrado. Mas, Pete Appleton recupera a memória justamente quando o FBI o descobre e é levado perante o HUAC onde debita um discurso como muitos que já vimos mas para pior.
The Majestic é um filme longo demais, profundamente sentimentalão e errado em imensos aspectos. Mas isto até nem é grave comparado com a errada perspectiva que dá de Hollywood e dos pequenas comunidades locais na época do McCarthismo. Em The Majestic, a indústria de Hollywood é predominantemente má e colaboradora, enquanto que as pessoas que para ela trabalham são essencialmente boas. Esta visão redutora está patente na redenção de Pete, que escapa aos caçadores de bruxas, e que vê o seu patrão a pagar as despesas de advogado.
Quando o filme termina fica-se com a sensação de ter visto uma espécie de "milkshake" de Hail de Conquering Hero e The Return of Martin Guerre, mas sem a ironia do primeiro nem a intensidade do segundo, e sobretudo, com falta de golpe de mão para lograr um bom batido.

The Majestic de Frank Darabont, com Jim Carrey, Martin Landau, Laurie Holden, Bob Balaban e Amanda Detmer.

Heartbreakers 

Heartbreakers um é um filme que é uma delícia. Pelas prestações efusivas de Sigourney Weaver e Gene Hackman, pela beleza feminina e adolescente de Jennifer Love-Hewitt, pelo argumento ritmado e cheio de razões para uma gargalhada, e muito especialmente pela cena de antologia em que Sigourney canta, com um excelente sotaque russo, uma versão de "Back in USSR" acompanhada por um quarteto de balalaicas.

Planet of the Apes 

O realizador Tim Burton avisou que os seu Planeta dos Macacos não seria um "remake" do original mas uma "re-imaginação". Se esta declaração for sincera e não se limitar a um ataque de pretenciisismo temos elementos suficientes para dizer que a imaginação de um dos mais criativos realizadores da década passada se evaporou.
O conto de Boulle que Shaffner filmou em 1968 é um clássico da ficção científica mas também uma parábola sobre o racismo e os movimentos sociais que na época afligiam o mundo. Com um final que marcou gerações Planet of the Apes tornou-se uma referência. Mais de 30 anos depois, o filme de Burton é uma empresa falida que se deve classificar nos filmes de acção de segunda e na lista dos maiores desapontamentos. O Planeta dos Macacos não respeitou a teoria darwiniana da evolução, tendo regredido em vez de evoluir.
Na nova versão, Mark Wahlberg é um astronauta catapultado para um planeta onde os macacos são a raça dirigente e os humanos escravos. Capturado, o astronauta é comprado pela macaca humanitária interpretada por Helena Bonham Carter que o ajuda a fugir e a chegar à sua nave destruída pela aterragem. Tudo o que se segue é um filme de acção com um argumento tão linear e previsível que até os macacos se antecipam âs acções dos humanos.
Mark wahlberg faz papel de parvo, que é uma coisa a que está habituado desde que nasceu e que desenvolveu como "rapper" e modelo de uma conhecida marca de cuecas. Helena Bonham Carter debita uma excelente performance, especialmente se tivermos em conta que quase só consegue mover os olhos por trás da máscara de macaca. Tim Roth, o mau da fita, dá a impressão que não está a char graça nenhuma e que percebeu no segundo "shot" que o filme ia ser uma merda. As cenas impossíveis e cheias de lugares comuns sucedem-se como se Burton estivesse a dirigir os irmãos Marx há 50 anos atrás.
é preocupante pensar que o cérebro que demonstrou uma maestria das trevas e uma capacidade inventiva muito acima da média em Batman ou em Sleepy Hollow, e que jâ se atacou à ficção cinetífica com a excelente rábula Mars Attacks, tenha conseguido fazer o filme mais aborrecido do ano. Para envergonhar ainda mais toda a gente, Charlton Heston, o astronauta do filme original teve direito a fazer de macaco num papel de segunda: a prova de que este filme vai contra lei natural da evolução, mas não é exactamente sobre isso que esta história era?

Planet of the Apes de Tim Burton, com Mark Wahlberg, Helena Bonham Carter, Tim Roth, Estella Warren, Kris Kristofferson e Charlton Heston

Bridget Jones's Diary 

“Afinal Bridget, porque é que ainda não casaste?” é esta a pergunta que atormenta a protagonista de Bridget Jones's Diary cuja vida decorre entre a frustração do dia-a-dia e os centímetros a mais à volta da cintura.
Baseado no romance de Helen Fielding, este filme retrata a história de uma trintona com uma apetência natural para o desastre social. Bridget Jones (Renée Zellweger) é uma mulher igual a nós, com as mesmas ambições de vida mas que um certo dia resolve dar um “turn-over” à sua vida e tornar-se numa mulher regrada, sem vícios e cheia de pretendentes! Ou seja, as suas pretensões passam por tornar-se numa mulher alta, magra, sexy, profissionalmente bem sucedida e com o olhar “35” para encontrar o homem ideal. Porém, devido aos seus próprios condicionalismos (leia-se: forte e inexplicável tendência para a gulodice, preferência por cuecas grandes que achatem a barriga e uma queda inata para homens de índole moral duvidosa), fazem-na caminhar inevitavelmente para o fracasso.
Mark Darcy (Colin Firth) e Daniel Cleaver (Hugh Grant) são as outras duas estrelas deste filme. Dois homens que se odeiam mutuamente, mas têm em comum o facto de adorarem a mesma mulher: a desastrada e adorável Miss Jones.
Uma reportagem supostamente focalizada em bombeiros impregnada com um forte carácter sexual, uma camisola com uma rena, uma gravata com sucessivos bonecos do Pai Natal e, um homem que tem em casa uma mulher nua, com um livro a fazer de vestido, são algumas das peripécias que representam apenas um quarto de milésimo do que este hilariante filme tem para oferecer.
Fazendo jus ao humor que Helen Fielding imprime ao seu livro e, com a ajuda de uma soberba banda sonora, este filme faz-nos ver, rir e chorar por mais.
Ah… e não se esqueçam meninas, algumas boas resoluções para o ano que vem: deixar de fumar, reduzir o consumo de álcool, reduzir em 8 centímetros o diâmetro das coxas, aprender a programar o vídeo, estabelecer relação funcional com adulto responsável...

Bridget Jones's Diary de Sharon Maguire, com Renée Zellweger, Colin Firth, Hugh Grant, Jim Broadbent e Gemma Jones
Texto de Sheylla Bhanji

Final Fantasy 

Final Fantasy é o mais recente monumento da cinematografia criada em computador. Inteiramente produzido digitalmente, este filme destaca-se dos seus predecessores porque coloca em cena personagens com aparência humana que enganam qualquer espectador de tão perfeitos. Um filme sem actores onde se ouvem as vozes de Donald Sutherland, James Woods, Steve Buscemi e outras estrelas bem reais. Obrigatório.

Bridget Jones's Diary 

Este filme, cortado do mesmo pano que Notting Hill e Four Weddings and a Funeral, tem como principal diferença basear-se num romance que foi um dos maiores êxitos de vendas dos últimos anos. Bridget Jones's Diary é um filme sobre um ano na vida de uma "singleton" - uma solteirona inveterada - de trinta e tantos, a braços com amores e desamores e a busca da felicidade.
A afeição do público, tanto masculino como feminino, pela heroína Bridget Jones pode parecer inexplicável se resumirmos a sua personalidade de forma puramente objectiva. Trata-se de uma fumadora em série que ingurgita taças de Chardonnay como eu bebo Água do Luso e que tem por único objectivo na vida vestir-se de noiva. Mas Bridget conquistou os corações do mundo nas páginas de Helen Fielding com a sua inclinação para o desastre social e a queda para as "gaffes" mais ridículas. Ou seja, acompanhar a vida de Miss Jones é um acto digno dos mais temerários desportistas radicais. A preparação física exigida consistindo em capacidade para rir durante quase toda a projecção.
O argumento que Helen Fielding co-escreveu com Richard Curtis mantém a ironia e o humor da obra original, deliciando os espíritos mais voyeuristas: apesar de o espectador se identificar com Bridget, a próxima bronca é aguardada com imensa expectativa.
A escolha da actriz norte-americana Renée Zellweger para dar corpo à heroína neurótica foi arriscada mas revelou-se um achado. A actriz engordou uma dezena de quilos para corresponder à Bridget do livro, sempre a braços com um rabo que só se comporta dentro de grandes cintas muito pouco sexys. Os britânicos poderão detectar traços do sotaque dos Estados Unidos em algumas das deixas de Zellweger que, apesar de brilhantemente adoptar uma pronúncia marcadamente "home counties" ao jeito de Hugh Grant, deixa escapar uma ou outra sonoridade texana, embora nunca perca a autenticidade.
Colin Firth recicla a sua personagem de Pride and Prejudice para encarnar o distante e frio Mark Darcy, mas Hugh Grant leva para casa o troféu para o protagonista masculino no papel de uma fuinha do amor (um papel que assenta como uma luva ao homem que enganou Elizabeth Hurley com uma prostituta de berma de estrada).
A inexperiente realizadora Sharon Maguire consegue prodígios de funambulista apoiando-se numa fina corda entre a comédia de gargalhadas e o romance mais lamechas, num filme que prova que Bridget Jones está tão enraizada na cultura popular que até Salman Rushdie e Jeffrey Archer se prestam a uma aparição no papel de eles próprios.

Bridget Jones's Diary de Sharon Maguire, com Renée Zellweger, Colin Firth, Hugh Grant e Gemma Jones

Driven 

Driven é mais uma aposta de Sylvester Stallone, o produtor. Um filme sobre o mundo das corridas no qual o argumento não é o elemento mais importante. Ver Driven é uma experiência mística para todos os apaixonados de velocidade. Algumas das melhores cenas de corridas sobre quatro rodas jamais filmadas – já para não falar nos acidentes – estão em Driven, com Stallone, Burt Reynolds e Til Schweiger.

Evolution 

Um meteorito cai na Terra e traz consigo uma substância viscosa que se revela estar viva. Esta ideia não é nova mas funcionou para mais que um filme, por isso tinha de ser suficientemente boa para Evolution, o mais recente trabalho de Ivan Reitman. Não é preciso ser um grande cinéfilo para recordar que Reitman realizou Ghostbusters. Muitos elementos de Evolution fazem pensar no grande êxito de bilheteira que foram as aventuras dos "caça-fantasmas" (atê Dan Aykroyd aparece num pequeno papel). A receita de Evolution é a mesma: uma terrível ameaça paira sobre a Humanidade e a nossa única esperança são um grupo de "palhaços" que nem sequer conseguem manter-se em pé em cima de um carro de bombeiros.
O filme começa com uma cena de antologia protagonizada por Sean William Scott (um dos ídolos do actual cinema adolescente), que prenuncia que o jovem actor será um dos pilares de Evolution. David Duchovny e Orlando Jones são dois professores de liceu que, por acaso, estão no local certo no momento certo (ou serão os dois errados?), mas cedo se descobre que a personagem de Duchovny é mais que um simples professor de química: numa divertida alusão à série X-Files, é revelado que Duchovny trabalhou outrora para o exército e para os serviços secretos.
Nisto tudo falta só uma mulher: a escolhida foi Julianne Moore. Aquela a quem alguém chamou a "sex-symbol" dos intelectuais continua a demonstrar uma capacidade inata para acender paixões mesmo nos mais recatados ratos de biblioteca. A personagem que interpreta é a de uma seriíssima investigadora que tem problemas de equilíbrio, tornando-se ridícula sempre que a acção exige uma gargalhada. Um exercício cómico que Moore já tinha provado saber fazer com esmero no clássico dos irmãos Coen, The Big Lebowski.
Orlando Jones é o machão tarado sexual do grupo, mas é personagem de Duchovny que conquista a heroína no final do filme. E fiquem descansados que ao revelar este pormenor não estou a estragar nada, já que o casal se forma virtualmente desde o primeiro encontro.
Os quatro actores principais são secundados por excelentes efeitos especiais – estes a fazerem também lembrar bastante Ghostbusters – que não aparecem só porque sim. Os efeitos estão subordinados aos actores e ao argumento e só por isso Evolution jâ sêria uma comédia acima da média. Mas além disso, é divertida sem quase nunca ser parva, apesar de o final ser um bocado descabelado. E para quem nnao estiver convencido, aqui fica mais uma razão: Evolution merece a atenção de todos aqueles que gostam de ir ao cinema para rir, mas especialmente de quem tiver caspa.

Evolution de Ivan Reitman, com David Duchovny, Julianne Moore, Orlando Jones, Sean William Scott e Dan Aykroyd

Shrek 

O grande e preguiçoso gigante a quem chamam Shrek gosta de viver na sua cabana que fica no meio, absolutamente no centro de uma floresta grande, enorme e espessa, e onde passa uma vida pacífica, a comer e a pescar. Quer dizer, a sua vida era aprazível até ao momento em que uma série de personagens assentam arraiais nas vizinhanças da sua cabana, como se de uma colónia de férias se tratasse. Shrek quer a paz e o sossego que caracterizavam o seu centro da floresta e, por isso, lança-se numa aventura, acompanhado por um burro.
Até aqui quase que podíamos estar a reproduzir de uma fábula contada pela Walt Disney, mas, na verdade, toda e qualquer semelhança com os desenhos animados da prestigiada casa acaba aqui.
Shrek inspira-se numas historietas escritas por um tal William Steig, que em 1990 contou as aventuras de um ogre verde com esse nome. Mas os estúdios Dreamworks não foram buscar a maior parte das ideias originais à história de Steig. O método adoptado foi: vamos pegar no imaginário Disney e destrui-lo à gargalhada. Personagens desse universo tão conhecido aparecem em Shrek para serem liminarmente destruídas à pancada ou diminuídas com o feroz sentido de humor dos protagonistas. O próprio vilão deste filme lembra umas quantas personagens Disney e sofre como um desgraçado frente aos valentes heróis que são o ogre Shrek (voz de Mike Myers), a princesa Fiona (Cameron Diaz) e o burro (Eddie Murphy).
Eddie Murphy debita o melhor papel deste filme animadíssimo, atirando para segundo plano o ogre que Mike Myers interpreta de forma um tanto pastelosa. Cameron Diaz faz justiça à sua fama de maria-rapaz e torna a princesa Fiona ainda menos princesa do que aquilo que alguém poderia imaginar, envolvendo-se inclusivamente em batalhas do tipo Matrix.
A técnica de animação é esplêndida, salientando-se as paisagens e a imensa gama de expressões que as personagens debitam consecutivamente. Escusado será dizer que tudo parece extremamente real – um contra-senso num filme que é um conto de fadas. Shrek destrói os mais conhecidos lugares-comuns e personagens desse tipo de contos sendo um ele próprio. As referências à cultura popular e ao imaginário colectivo ocidentais, fazem de Shrek um filme que os adultos vão admirar muito mais que as crianças e que o Festival de Cannes deste ano quase consagrou.

Shrek de Andrew Adamson e Victoria Jenson, com as vozes de Mike Myers, Eddie Murphy, Cameron Diaz e John Lithgow

Lara Croft - Tomb Raider 

Lara Croft, heroína de Tomb Raider
Namorei com um Pokémon
Raúl: Lara, depois dos jogos de computadores, como se sente na sua primeira experiência no cinema?
Lara Croft: Foi muito difícil. No cinema não temos ninguém a dar-nos ordens. Não está ninguém agarrado ao teclado ou ao joystick a dirigir-nos. No cinema temos muita liberdade…
R: Foi difícil decorar o papel?
LC: Foi horrível! No jogo eu limito-me a fazer sempre a mesma coisa na parte de demonstração, e já fiz isso tantas vezes que nunca me engano. Depois é o jogador que manda. Agora aqui foi lixado – ai, não se pode dizer estas palavras, pois não?
R: Deixe lá, Lara. Lixado não é muito mau.
LC: Nos Estados Unidos não se pode dizer nada nos filmes. Eu só podia dizer "Ai, Meu Deus", e no máximo quatro vezes! Ainda bem que no jogo não tenho de falar: só corro, salto, luto...
R: Então o que foi mais difícil: falar ou decorar as deixas?
LC: Tudo. Falar e decorar o que tinha de dizer… e isto diante daquela gente toda no estúdio! No jogo sou só eu e o jogador. É mais íntimo, há uma relação que se desenvolve entre nós. Ele manda em mim e eu obedeço.
R: Você é a mulher ideal para muitos homens! É mesmo obediente? No filme não parece.
LC: Sou, com homens ou mulheres! Eu jogo para toda a gente. Mas é verdade que há mais rapazes do que raparigas a jogarem comigo.
R: No filme eles decidiram despi-la um pouco mais que no jogo, Lara. Como se sentiu?
LC: Adorei. Eu até lhes pedi mais, mas eles não aceitaram por causa da classificação do filme ou lá o que é. A única cena em que me dispo é no chuveiro e depois largo a toalha em frente ao Hillary, o meu mordomo. Mas isso não tem mal nenhum: foi ele que me criou e já me viu nua milhões de vezes.
R: Há boatos de um jogo erótico consigo...
LC: É mesmo verdade. Existe uma imitadora que fez um jogo, mas não é erótico é mesmo pornográfico. Talvez um dia eu faça cinema para adultos, mas por agora ainda é cedo...
R: E o mistério que rodeia a sua família? Não a perturba não se lembrar da sua mãe e ter apenas uma vaga ideia do seu pai?
LC: Eu estive numas sessões de psicanálise em grupo para personagens de ficção e conheci lá gente com o mesmo problema: o Batman e o Superman, por exemplo. Passei noitadas com o Batman a falar disso. Ainda por cima, o Batman também vive com um mordomo como eu…
R: Isto cheira-me a romance…
LC: Não, não há nada de especial entre nós. Nós vimos de mundos muito diferentes, um da banda desenhada, outro das consolas de jogos. Nunca funcionaria. Sabe o que aconteceu com Pato Donald e a Wonder Woman, não sabe? São mundos diferentes e não convém misturá-los.
R: Então a Lara só procura namorados do mundo informático?
LC: Eu tenho uma vida muito recatada. Andei um tempo com o Bandit Petticoat e tive uma duração de uns meses com um Pokémon cujo nome não vou revelar, mas depois descobri que ele era casado. Os Pokémons são uma gente odiosa…
R: Lamento imenso. Lara, para terminar, quais são os seus projectos para o futuro?
LC: Agora vou de férias. Aluguei uma casa em Albufeira e vou dar uns mergulhos naquelas águas quentinhas.
R: Vai sózinha?
LC: Claro. Levo a minha Playstation, o meu computador e vou passar muito tempo na internet a ver os sítios que me dedicam todos os dias.

Lara Croft - Tomb Raider de Simon West, com Angelina Jolie, Iain Glen, Noah Taylor, Daniel Craig e Jon Voight

Say It Isn't So 

Os famosos irmãos Farrelly, criadores de Something About Mary e Me, Myself and Irene, já cobriram várias áreas do absurdo e do mau gosto, desde o gel de cabelo orgânico até às execuções de vacas na via pública. O incesto ainda não lhes tinha passado pela cabeça e, talvez por acharem o tema de difícil trato, entregaram a realização de um argumento sobre oa ssunto a um amigo chamado James B. Rogers.
Say It Isn't So é a versão Farrelly do drama greco-queiroziano em que um rapaz se apaixona por uma rapariga para descobrir logo depois que ela é sua irmã. Neste filme, não é preciso ler centenas de páginas para a notícia aparecer: logo na primeira vez que os manos se entrelaçam no vale de lençóis uma chama telefónica interrompe-os anunciando o laço de sangue. Contudo, esta tragédia encontra depressa solução: tratava-se apenas de um caso de confusão de identidades e os pombinhos não eram parentes. A descoberta deste facto não resolve o problema, arrastando-se a polémica até ao fim do filme graças a uma mãe estremosa que só quer o bem da filha: que ela case com um homem muito rico.
Para interpretar o casal, os produtores Farrelly escolheram Heather Graham e Chris Klein. Ela limita-se a encaixar piadas e a fugir para recantos chorar. Ele é naturalmente simpático mas esforça-se demais e acaba por cansar com a sua permanente assistência ao texto, embora a sua cara de parvo ajude a tornar credíveis situações quase impossíveis. Sally Field corre histericamente de uma cena para outra, compondo uma mãe oportunista que só merece as risadas e desdém. O prémio da melhor interpretação vai para um sósia de Jimi Hendrix chamado Orlando Jones que, no papel de piloto-aviador sem pernas, dá asas a algumas cenas sem nunca perder altura.
O principal defeito de Say It Isn't So é a falta de cadência; culpa exclusiva do realizador. Preocupado em gerir a oportunidade que os seus líderes espirituais lhe concederam, Rogers filma mecanicamente e não consegue fazer rir, por exemplo, com uma cena de vacas muito mais divertida que aquela que os manos Farrelly filmaram com Jim Carrey. A culpa do "flop" é todinha do realizador e do protagonista Chris Klein que acusam a responsabilidade de fazer um filme cómico sobre o incesto como se estivessem a adaptar Os Maias ao cinema. E posso dizer-lhes que Say It Isn't So não é nada disto.

Say It Isn't So de James B. Rogers, com Heather Graham, Chris Klein, Sally Field, orlando Jones e Richard Jenkins
raul.reis@internet.lu

Pearl Harbor 

140 milhões de dólares custou a produção de Pearl Harbor, se não contarmos com a festa que os produtores organizaram para apresentar o filme a bordo de um porta-aviões da marinha norte-americana. Nunca um filme custou tanto dinheiro, nunca se anunciou de forma tão veemente "aí vem um épico, uma epopeia", que durante três horas conta o ataque da aviação japonesa a Pearl Harbor durante a Segunda Guerra Mundial. A cena da batalha é uma brilhante utilização de efeitos especiais – uma das melhores feitas até hoje num filme de guerra – mas o balanço global é negativo.
Isto não equivale a dizer que a mais recente realização de Michael Bay resultou numa obra de má qualidade. O filme até se pode ver e digerir, mas precisa da ajuda de alguns sais de frutos. Os responsáveis pela produção de Pearl Harbor decidiram fazer um filme baseado mais numa história de amor que no aspecto histórico. Sabendo que as plateias de hoje se estão absolutamente marimbando para filmes históricos e para o facto de a trama ser fiel ou não, o argumentista pegou sem vergonha no princípio de Titanic e tentou colar o público ao ecrã com uma história de amor no contexto da guerra. Assim, o filme dedica imenso tempo a mostrar a amizade entre as personagens de Ben Affleck e Josh Hartnett, que são ambos pilotos-aviadores, e se apaixonam pela mesma mulher, uma enfermeira da Marinha. Se Ben leva incialmente a melhor no coração da jovem, a sua desaparição deixa o caminho livre para Josh que se apressa a engravidar a menina. Quando Ben "regressa dos mortos" a sua querida está grávida do seu melhor amigo.
A questão vai ser resolvida da maneira dura, numa batalha (afinal este é um filme de guerra), limando um dos ângulos do triângulo amoroso. Tudo isto se passa com uma lentidão oliveiriana e é preciso uma boa dose de paciência para aturar estes jovens certinhos, talhados para virem a figurar em anúncios de frigoríficos dez anos depois.
Sobra a personagem de Cuba Gooding Jr., que é baseada numa figura histórica, Dorie Miller. Miller era um cozinheiro que abateu alguns aviões japoneses atrás da sua canhoneira; uma espécie de padeira de Aljubarrota masculina e de cor castanha. Mas mesmo esta personagem curiosa é mal aproveitada e o público fica sempre com a sensação de não ter nada a ver com aquilo tudo. Pior: é difícil ter pena dos bons, como é quase impossível preocupar-se com as vítimas japonesas, de tal forma elas voam entre balázios e explosões, como se de um desenho animado "manga" se tratasse.
raul.reis@internet.lu

À ma soeur 

Catherine Breillat chocou meio mundo com um filme chamado Romance em que não havia nada de romântico. Felizmente, metade do mundo não viu o filme e o projecto porno-policial da cineasta francesa foi agredido de forma qualificada pela crítica quase toda, incluindo nas páginas do Correio. Por isso, quando À Ma Soeur apareceu nas salas foi com um sentimento de repulsa que escolhi o lugar da minha preferência entre as poltronas vazias. O filme começa como todos os outros, com um genérico musicado, só que este prenuncia morte, com os seus caracteres vermelhos em fundo negro e uma cantiga, entoada por uma voz de criança, que fala de corvos e corações que apodrecem à janela.
Este simples tema musical quase que resume o filme; o seu lado trágico, a história de amores infelizes e o ritmo lento em que nos embala até ao final. Os dias de Verão de duas irmãs de 13 e 15 anos são contados quase em tempo real, em cenas estudadas para ouvirmos os diálogos agrestes de duas crianças, novas demais para serem sexualmente maiores, mas que, mais do que descobrir o sexo, se defrontam com escolhas que as confundem baralhando sexo com amor e outras emoções.
As duas irmãs fazem escolhas distintas, essencialmente porque a vida as fez diferentes: a mais velha é bela e atraente, enquanto que a outra, mais lúcida e adulta apesar de mais nova, é gorda e feia. Tudo isto é dito com estas palavras, de forma crua e dolorosa. Quando a irmã bonita quer agredir a outra, diz-lhe, sem pudor, que ela é "uma vaca gorda e nem parecemos irmãs".
Este realismo é a principal virtude do filme que só desliza em pormenores - pouco importantes, felizmente - para o campo do inverosímil. A história das duas jovens podia acontecer em qualquer sítio, connosco ou com o vizinho, e é isso que assusta em À Ma Soeur. Mesmo não podendo adivinhar qual a mensagem que a realizadora pretende transmitir, o filme tem um evidente elemento pedagógico: é um alerta a pais distraídos, desde que estes consigam ter a capacidade autocrítica para perceberem que já cometeram erros e que os seus rebentos nunca são novos demais.
Aquilo que não agrada em À Ma Soeur é o lado aparentemente autobiográfico contido no título e em algumas referências durante o filme. Assim sendo, Catherine Breillat estaria a auto-elogiar-se o tempo todo, explicando o porquê da sua atitude perante a vida. Para sabermos isso - que por acaso até nem é importante para vivermos felizes - é preciso esperar o próximo filme de Catherine Breillat, que talvez seja desta vez dedicado aos seus pais, ao leiteiro, ou ainda ao primeiro que passe num velho Porsche descapotável.
PS - E com esta perspectiva parental esqueci-me que este filme pode ser visto por adolescentes. Não consigo imaginar o efeito de À Ma Soeur numa jovem daquelas idades. Só sei que quando eu era adolescente queria que tudo passasse muito depressa, mas agora percebo que cada coisa tem o seu tempo. A lição que fica é que todos os terríveis males da adolescência têm a duração e o perigo de uma borbulha, mas rebentá-la pode deixar marcas.
raul.reis@internet.lu

La Stanza del Figlio 

Nanni Moretti chegou pela quinta vez ao festival de Cannes para conquistar o prémio máximo, a Palma de Ouro, com um filme ao seu estilo: intimista, pessoal, familiar e... "autárcico". Já em 1976, no seu primeiro trabalho como realizador, Moretti anunciava no título "Sou um autárcico". Se a palavra "cocooning" já tivesse sido inventada em 1976, cerrtamente que Moretti a teria utilizado. O seu cinema é assim, uma arte que se faz em pantufas, em casa e as suas personagens são, elas também, pessoas que vivem em casas, longe dos perigos do mundo.
Em La Stanza del Figlio, Moretti traz outra das vertentes de toda a sua cinematografia que é a morte e o medo que ela provoca. O próprio realizador dizia numa entrevista: "à medida que envelhecemos começamos a pensar cada vez mais na morte e, por isso, tentei enfrentar este medo fazendo um filme". Mas se a morte podia ser abordada de muitas maneiras (veja-se o filme de Oliveira Vou Para Casa, em que a morte paira mas não se apresenta), nesta obra de Moretti a morte abate-se sobre uma família feliz e unida e chega cedo demais. O filho de 17 anos morre num acidente de mergulho abalando de forma violenta os pais e a sua irmã mais velha.
La Stanza del Figlio mostra em pormenor como este acontecimento afecta cada um dos membros da família, com principal destaque para o pai, um psicanalista, interpretado por Moretti. Segundo palavras do próprio realizador, foi a primeira vez que ele se deixou levar pela atmosfera e pelos sentimentos que queria transmitir, o que terá contribuído bastante para o realismo desta película imbuída de símbolos.
Desde o início do filme que há uma série de quase acidentes envolvendo todos os membros da família, que deixam adivinhar a iminente morte do filho. Posteriormente, quando a família se encontra reunida na funerária a cena é filmada com detalhe e um realismo que incomoda. Moretti optou por esta via porque, diz, "na tradição do cinema italiano só se podia pensar esta cena de duas formas: a grotesca, com gente a dançar a tarantella ou com telemóveis a tocar e parentes a conversar, ou a chorosa, com dor estampada no rosto de toda a gente. Eu procurei a terceira via, que penso ser a realista". A aposta foi ganha, sendo esta uma das cenas mais dolorosas e comoventes, apesar das personagens quase que não verterem lágrimas.
A tensão é maior e as válvulas de escape da família mínimas porque eles não são católicos e no momento do enterro fica bem claro, também para os espectadores, que é o fim. Não pode haver vida depois do caixão ser soldado e os parafusos apertados à força de Black&Decker.
Recusando toda a hipótese de uma vida após a morte e a fatalidade do destino, a personagem interpretada por Moretti desespera ao ouvir um padre dizer que não havia nada a fazer porque Deus tinha marcado encontro com o jovem. O pai começa a culpabilizar-se por nesse dia não ter alterado os seus planos para passar o dia com o filho, chegando ao ponto de deixar de trabalhar por se sentir incapaz de ajudar os seus pacientes. La Stanza del Figlio é essencialmente sobre a impotência de fazer qualquer coisa perante a morte, sobre a responsabilidade de quem cá fica e sobre "se calhar eu podia ter feito qualquer coisa que evitasse aquilo que veio a acontecer". Infelizmente, é sempre tarde demais.
raul.reis@internet.lu

15 Minutes 

De um ponto de vista puramente temático o filme 15 Minutes não oferece nada de novo. Os comentários sociais que debita sobre o poder dos meios de comunicação social, a violência que grassa nos Estados Unidos e o culto do estrelato (daí os 15 minutos do título, numa referência à gasta declaração de Andy Warhol) são temas que já foram tratados no cinema por muitos outros filmes. No entanto, há algo de especial na forma como esta obra aborda esses mesmo temas, fazendo-o de forma quase sempre inesperada, para não dizer estranha. Assim, chegamos ao fim do filme a acreditar que tudo pode acontecer, e isso em cinema é uma boa coisa.
Robert De Niro é um detective, daqueles bonzinhos e de que toda a gente gosta, especialmente os jornalistas. O facto de ser amigo de um apresentador de televisão e namorado de uma jornalista também ajuda. No seu trabalho De Niro cruza-se com um bombeiro e acabam por se esbarrar com um estranho casal que tem por divertimento filmar as suas actividades ilícitas. De Niro torna-se a vítima potencial do próximo golpe do casal que pretende raptá-lo e ganhar uma fortuna com o vídeo e os eventuais direito de autor de um livro.
Tudo isto dava um melhor policial que um filme de intervenção social, mas produtores e o realizador parecem ter decidido que as tais questões que mencionámos no início merecem o centro das atenções e tudo se mistura, mesmo que para isso seja preciso criar situações improváveis tal como o facto de um polícia e um bombeiro investigarem juntos um crime.
15 Minutes arrisca bastante e nem tudo funciona neste filme, mas uma coisa é certa: tem um tema, o que actualmente nem sempre é costume. O espectador não vai certamente preocupar-se com os problemas da fama, ou da ténua fronteira entre exploração e entretenimento, mas esses assuntos passam pelo ecrã, e de forma marcante, ao misturarem-se com a violência do "thriller" policial.
raul.reis@internet.lu

Teaching Mrs. Tingle 

Toda a gente anda agora a descobrir a pólvora dos filmes para adolescentes. Acção localizada num liceu, meia dúzia de caras bonitas e um argumento pouco inteligente, são os ingredientes dos filmezecos que vão impingindo aos mais jovens. Desta vez o realizador Kevin Williamson, realizador e argumentista, apresenta-nos a professora com pior feitio dos Estados Unidos: Mrs. Tingle. Mas a pobre Tingle vai defrontar uma jovem aluna trabalhadora que não atina com ela e ainda por cima não gosta das aulas de História. Além disso, a aluna precisa de uma boa nota para poder ir para a universidade e acaba por raptar, com uma "little help from her friends", a desgraçada Mrs. Tingle. E tudo isto porque, no fundo, no fundo, Mrs. Tingle é muito má e detesta as suas alunas porque elas são giras e novas enquanto ela é velha e feia. Por isso "vamos ensinar umas coisas à Mrs. Tingle", decidem os alunos. As personagens são péssimas caricaturas mal interpretadas e até a triste Mrs. Tingle (Helen Mirren) é um fantoche sem pés nem cabeça, nem credibilidade.
raul.reis@internet.lu

The Fight Club 

Basta-me o fraquinho que tenho por Brad Pitt para dizer bem de qualquer filme em que este actor participe. Ainda hoje me envergonho de ter elogiado Twelve Monkeys só porque Pitt aí brilhava durante uma dúzia de minutos. Mas creio poder dizer com certeza que The Fight Club é um filme brilhante: por causa de Pitt, mas principalmente por causa de David Fincher. Esta é a confirmação do realizador de Seven, que começou com Alien 3 e não convenceu com The Game. The Fight Club é a reconciliação com os fãs de Seven e a conquista de todo o universo cinematográfico. Um dos melhores filmes dos anos 90. Um filme sobre o amor, apesar de não se ver muito bem que esse é o elemento que falta e... explica o filme. Neste fim de século (apesar de este lugar comum já estar a ficar gasto), Fincher filmou uma crítica à nossa sociedade de competição onde as pessoas estão cada vez mais sós e sem amor. Em The Fight Club a solução encontrada é a porrada. Por isso é um filme duro e — dizem alguns — machista; mas não, é apenas e, como o crime, quase perfeito.
raul.reis@internet.lu

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